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Sexta-feira, 21 de Agosto 2026
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Santa Catarina

Pesquisa da UFSC analisa relação entre alimentação e inflamação

Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) investigou como o potencial inflamatório da alimentação está relacionado a substâncias que indicam processos de inflamação no organismo

Pesquisa da UFSC analisa relação entre alimentação e inflamação
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 A tese, desenvolvida pela doutoranda Karine Andrea Albiero Simiano, do Programa de Pós-Graduação em Nutrição (PPGN), analisou dados de 958 adultos residentes na cidade de  Viçosa, Minas Gerais.  Os resultados apontaram uma associação entre dietas com maior potencial inflamatório e concentrações mais elevadas da proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us), um dos marcadores utilizados para avaliar processos inflamatórios. Para outros marcadores analisados, porém, as associações foram incertas.

A PCR é um exame sanguíneo utilizado para avaliar a presença de inflamação no organismo.  De acordo com o estudo, no contexto da nutrição, seus níveis podem auxiliar na identificação de processos inflamatórios associados ao excesso de peso, a padrões alimentares inadequados ou a determinadas doenças, contribuindo para a escolha de uma alimentação mais saudável e com potencial anti-inflamatório.

A pesquisa utilizou o Dietary Inflammatory Index (DII®), ou Índice Inflamatório da Dieta, ferramenta criada para estimar se o conjunto da alimentação apresenta maior potencial pró-inflamatório ou anti-inflamatório. O índice não classifica alimentos isoladamente como ‘bons’ ou ‘ruins’, mas considera diferentes componentes da alimentação para produzir uma pontuação. “O resultado final não representa a ação de um alimento isolado, mas uma estimativa do potencial inflamatório do conjunto da alimentação”, explica Karine.

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A inflamação é uma resposta natural do organismo, importante para a defesa e a recuperação diante de diferentes situações. Quando processos inflamatórios permanecem por períodos prolongados, podem estar relacionados ao desenvolvimento de doenças crônicas, como obesidade, diabetes tipo 2 e doenças cardiovasculares.

Para estudar essa relação, o DII considera componentes como nutrientes, alimentos e compostos bioativos. Na versão original, o índice foi construído a partir de 45 parâmetros alimentares. Na pesquisa da UFSC, foram utilizados 25 parâmetros, com base nas informações obtidas por meio de questionários de frequência alimentar.

“O DII mostra se uma alimentação tem mais características que podem favorecer ou reduzir a inflamação”, explica a pesquisadora. Quanto maior o resultado, maior é a tendência de a alimentação favorecer a inflamação. Já resultados menores indicam uma alimentação que pode ajudar a reduzir a inflamação. A tese também comparou três formas diferentes de calcular esse resultado. Isso permitiu verificar se as conclusões eram parecidas ou se mudavam de acordo com a forma de cálculo utilizada.

Marcadores

Segundo Karine, essa comparação é relevante porque a literatura científica apresenta diferenças na aplicação do índice. “Algumas associações apresentaram diferenças entre as abordagens, o que reforça a importância da transparência científica na descrição do método utilizado”, afirma. Além da análise com adultos de Viçosa, a tese reuniu evidências de pesquisas realizadas em diferentes países. Uma revisão sistemática com meta-análise avaliou 25 estudos observacionais, com mais de 149 mil participantes.

Essa etapa também identificou uma associação entre o maior potencial inflamatório da dieta e níveis mais elevados de proteína C-reativa (PCR).  No entanto, a confiança nessa evidência foi considerada baixa, devido às diferenças entre os estudos e à variação dos resultados. Na pesquisa realizada em Viçosa, além da PCR-us, foram avaliados seis outros marcadores inflamatórios: IL-1β, IL-6, IL-8, IL-10, IL-12p70 e TNF-α.  Os marcadores são citocinas. Elas são pequenas proteínas que funcionam como mensageiras do sistema imune. Elas controlam a inflamação, avisam o corpo sobre infecções ou lesões e ajudam a curar os tecidos 

Para a IL-8, algumas análises apresentaram uma associação em sentido inverso: dietas com maior potencial inflamatório estiveram relacionadas a menores concentrações do marcador. Para os demais biomarcadores, os resultados não permitiram estabelecer associações consistentes. “A inflamação é um processo biológico complexo e multifatorial, que envolve a atuação conjunta de diferentes mediadores e mecanismos”, destaca Karine. Por isso, segundo ela, avaliar apenas um marcador pode oferecer uma visão parcial desse processo.

A pesquisa da UFSC também analisou  a utilização do DII em estudos científicos. Entre os principais problemas identificados estão a falta de padronização na aplicação do índice e os desafios relacionados à avaliação do consumo alimentar. Atualmente, o DII é utilizado principalmente em pesquisas epidemiológicas. Embora possa contribuir para o estudo da relação entre alimentação e inflamação, ainda não é uma ferramenta estabelecida para uso clínico de rotina.

Os resultados da tese, portanto, não significam que o DII possa diagnosticar inflamação ou determinar sozinho uma conduta para pacientes. Para a pesquisadora, a principal contribuição do trabalho é ampliar o conhecimento sobre a relação entre alimentação e processos inflamatórios e apontar caminhos para pesquisas futuras. “Os achados oferecem subsídios para a construção do conhecimento científico e reforçam a necessidade de pesquisas robustas e consistentes”, afirma.

O estudo realizado com os adultos de Viçosa foi publicado em maio de 2026 no periódico Nutrition Research. As etapas de revisão sistemática e de análise sobre as limitações e possibilidades do DII estão em processo editorial. Para Karine, o avanço do conhecimento nessa área depende de métodos mais consistentes e de uma interpretação cuidadosa dos resultados. “Avanços na área requerem pesquisas com rigor metodológico, abordagens padronizadas e uma postura reflexiva na interpretação dos resultados”, conclui.

Fonte/Créditos: Rosângela Matos | agecom@contato.ufsc.br

Créditos (Imagem de capa): INTERNET

Redação Portal SC Notícias

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